Juros: Sei que sou um “pregador no deserto”, mas o pior da inflação mundial em 2022 ainda está por vir. O verão no hemisfério norte, seguindo 2º semente afora, ainda trarão muitas novidades ruins em relação a preços. Sendo assim, sigo fortemente recomendando investimentos em juros apenas pós fixados.

Cambio: Devido a dificuldade nos próximos meses de se “enxergar” o que será juro nominal e real nos EUA, e também no Brasil, deveremos assistir a continuidade da saída de recursos do país, que entraram desde o final de 2021. A tendencia para os próximos meses é desvalorização.

Bolsa: Ainda sigo com o call de commodity e inflação. Depois de uma década de expansão de múltiplos e valuations sem base concreta, a retomada de juros reais no EUA trarão um “retorno ao básico”, a alocação deve fluir para empresas com fluxo de caixa, após anos de foco em “growth”. Aqui, sempre esperem foco no fluxo de caixa.

As decisões de FOMC e COPOM se sobrepõe aos números ruins de inflação no Brasil e no mundo que se apresentaram em abril.

Inflação permanece como o principal foco de atenção para os ativos do mercado em geral. A decisão do FED, elevando o FED Funds em 0,5%, deixando a porta aberta para novas altas e especialmente a redução de seu Balanço, sem dúvida repercutirão pelo mundo.

No Brasil, o Bacen já se vê na posição de seguir observando os acontecimentos, mas retirou da mesa o fim do ciclo de alta da Selic.

Em abril, o Índice de Preços de Alimentos da FAO (FFPI), apresentou uma leve queda de 0,52%, muito comum, após uma fortíssima alta de 12,63%, fortemente puxado por cerais (17,11%) e óleos de cozinha (23,24%). Vale destacar que, em abril, os itens que vinham puxando o índice desde o inicio do ano, apresentaram variação negativa. Isso é o efeito base dos meses anteriores.

Em relação a variação anual, o FFPI desacelerou de 33% em março, para 30% em abril.

Seguindo as premissas, apresentadas ontem pelo FED, de redução de seu Balanço, abaixo segue um cenário possível até dezembro de 2023.

Em tese, o FED revenderia de sua carteira de títulos, U$ 311B em 2022 e U$ 1.144B em 2023.

Como já tive oportunidade, em 2021, de falar sobre o volume absurdo “empossado” na Reverse Repo de 1 dia do FED, que somou em 05/05/22 um montante de U$ 1.845B. Um montante dinheiro que está sendo revertido diariamente ao FED, recebendo a remuneração de 0,8% a.a., que na realidade não gera nenhum efeito monetário positivo na economia, pois fica apenas “parkeado” rodando por um dia.

Acredito que o processo será o seguinte: o FED venderá seus títulos ao mercado secundário e no fim do dia, quando esse dinheiro “parkeado” no Reverse Repo, sentir conforto em deixar a remuneração de 0,8% a.a. (sabendo que deve chegar a 3% ano final de 2022), ele fluirá para ser alocado nos títulos oferecidos pelo FED.

O problema será saber, que nível de taxa esses recursos começarão a migrar. Eu não sei, mas, me parece que um título de 10 anos deveria ter prêmio sobre o chamado juro neutro de 3%.

Aqui está o custo que eu tanto falei em 2021, da inflação transitória e do FED ficar tão “behind the curve”. Os longos (10Y e 30Y) irão subir bem. Isso sem contar os efeitos sobre as taxas de Mortgage de 30 anos. Um tema que deve ser falado em separado.

A ETTJ acima já é “passado”, após as decisões em 04/05/22 do FED e do Copom, mas serve para mostrar que ao longo de abril, mesmo com greve do Bacen e sem divulgação dos números do Focus, as expectativas de inflação subiram bem.

Vale ressaltar duas coisas: i) após o forte aumento de combustíveis no início de março, as projeções seguem subindo e ii) que mesmo com o descolamento de Alimentação no Domicílio, afetando o número cheio – representa 20% do IPCA – as expectativas de preços Livres e Industrializados permanecem acima no índice cheio. Mostrando que existe realmente uma perpetuação inflacionária em andamento.

Vale destacar que, a inflação de 2023, apesar das altas esperadas da Selic e já embutidas nas taxas de juros futuras, o IPCA de 2023 segue sua trajetória suave de alta, ainda dentro da Banda da Meta de Inflação, cujo o Topo é 4,75%.

Em abril de 2022 o Real (BRL) se desvalorizou perante o Dólar (USD) 3,83%. No ano, o BRL acumulou uma apreciação de 11,85% contra o USD.

Nesta semana, até 05/05/22, o Real se desvalorizou adicionais 2,22% e acredito que a tendencia seja essa, desvalorização.

Por quê? Ter confiança e visibilidade no curto prazo do que será juros reais no Brasil e EUA é difícil, o que por definição, traz um movimento de “risk off” em todas as moedas, inclusive a de países exportadores de commodities como o Brasil.

No fim do dia, foram três meses subindo e apenas um para devolver quase tudo. Com os juros subindo acima do esperado e a indefinição sobre a formação da taxa de juros nominal no curto prazo, o fluxo de saída de estrangeiros e de ações no geral deve continuar.

A curva de juros americanos só inverterá para um cenário recessivo, apenas quando virmos o esgotamento do ciclo de alta e ele não se dará nos próximos seis meses, por exemplo. Então, um cenário recessivo ainda está longe.

Começou o “ajuste de contas” da crise de sub-prime de 2008. Vamos ver quem vai “sobrar em pé” com taxas americanas de juros nominais mais altas e reais positivas.

Hoje, só dá para dizer uma coisa: países exportadores de comodities e manufaturados, deverão resistir bem melhor que os demais, como Europa ou Inglaterra, por exemplo.

Outro mercado que sempre desejei saber como ficaria com juros reais positivos e o dos crypto ativos.

Enfim, tudo leva a crer que a realidade vai voltar, ou se o sonho de juros eternamente baixos no mundo foi um sonho, e assim veremos o que acontece até o fim desse ano.

Os comentários acima, sobre o câmbio, servem também para ações. Especialmente como será a realidade dos Valuation e alocação de capital com juros reais positivos.

Acho que o mundo dos múltiplos nas alturas pode ter acabado. Vamos ver.

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